A imortalidade de uma cultura também se mede pela imortalidade de sua culinária. Manter o rastro entre a cozinha antiga, a moderna e até aquela que se encontra nos dias atuais —nos restaurantes, lanchonetes e locais brasileiros de comida por quilo — é uma tarefa longa, extensiva e talvez exaustiva. Resolvi escrever este pequeno livro para resgatar as experiências culinárias mais interessantes e próximas daquelas que marcaram minha infância na Sicília, no sul da Itália.
Mudei-me para o estado de São Paulo em 2007 e experimentei diversas comidas, em restaurantes baratos e caros, com ingredientes e sabores que me remeteram fortemente às
minhas raízes. Os aromas, os sabores e até os cheiros da comida paulista assemelham-se, às vezes mais, às vezes menos, aos perfumes das culinárias mais tradicionais da Itália.
Parece, então, que, junto com a imigração italiana entre 1850 e 1930, trouxe-se também uma marcante tradição culinária.
Eu, que sou apenas um siciliano residente no Brasil há pouco mais de 15 anos, sinto a necessidade de narrar a existência dessa ligação sutil entre parte da culinária italiana no Brasil e a culinária do sul da Itália, em especial a siciliana. O conteúdo deste livro parte
sempre da receita original italiana e convida o leitor a imaginar sua correspondente adaptação brasileira, encontrada em restaurantes do estado de São Paulo e do país inteiro.
Dentre todas as receitas que poderiam constar nesta obra, escolhi as mais comuns, aquelas presentes em restaurantes por quilo que atendem a todos os tipos de público, excluindo desta análise pratos sofisticados servidos em estabelecimentos que se auto-intitulam
"italianos tradicionais" — abundantes em São Paulo. Este livro é uma tentativa pequena de não perder o elo entre a comida cotidiana (ou parte dela) dos restaurantes brasileiros e suas
origens, e não uma avaliação da culinária italiana no Brasil.
Assim como muitos filhos de italianos e brasileiros contribuíram para o renascimento e o crescimento da nação brasileira, acredito que a culinária italiana do final do século XIX, introduzida aqui pela imigração, evoluiu e renasceu com pequenas diferenças, mas sem
perder sua herança essencial. É crucial valorizar a comida do dia a dia tanto quanto a dos domingos em família, pois nela reside a virtude das tradições. O que é chamado de "tradicional" é aquilo repetido dia após dia, não o prato exótico, sofisticado e caro de certos restaurantes.
Exalto os sabores italianos que renascem nos restaurantes por quilo, alimentando caminhoneiros, professores, estudantes e gestantes. Concluo esta breve introdução agradecendo novamente ao povo brasileiro pelo amor e pelo carinho intenso com que fui
recebido — inclusive em ambientes distantes do meu trabalho cotidiano —, um afeto que considero genuíno e despretensioso.